Thursday, September 15, 2005

Zaragoza - Ciudad del Pecado

Domingo último, incomodado pela minha mãe que queria a todo custo ir ao cinema, fui assistir a 'Sin City' pela TERCEIRA vez. Não se importando com os meus protestos de "Mãe, tu não vais gostar deste filme", ela insistiu em vê-lo. Arrependido, porém, saí eu do cinema, posto que logo na primeira cena o assassino de aluguel aborda a dama do terraço não com um 'Care for a smoke?' que eu já havia decorado, mas com um 'Quieres un cigarrillo?', em alto e bom castillano. Ou seja: os filmes aqui, mesmo no cinema, são todos dublados!!! Assistir a 'Sin City' com ares de 'Maria del Barrio' às cinco da tarde no SBT foi o pior castigo que eu poderia ter tido por essas terras ibéricas. Aos que não acreditam, quatro provas de que uma dublagem pode arruinar um filme (favor ler as frases em voz alta, com a entonação de Ligeirinho/Speedy González, aquele ratinho mexicano do desenho animado):

DWIGHT McCARTHY(Clive Owen), quando ataca JACKIE-BOY(Benicio del Toro) no banheiro: "¡Hola! Soy el nuevo novio de Selly (Assim mesmo, sem o 'h' de 'Shelly'), y estoy pirado!!!"

JOHN HARTIGAN(Bruce Willis), quando avista NANCY CALLAHAN(Jessica Alba) no bar: "La pequeña y flaca Nancy Callahan. Hay crescido. Y como!!!"

JOHN HARTIGAN(Bruce Willis), procurando o corpo de Roarke Jr.(Nick Stahl, já amarelo): "¡¡¡Su sangre está por todo, pero él ha sumido, el cabrón!!!

BASTARDO AMARILLO(!)(Nick Stahl), confrontando um JOHN HARTIGAN(Bruce Willis) amarrado: "¿Reconoce mi voz, Hartigan? Reconoce mi voz, hijo de puta!?!"

O resultado desse desastre foi que saí do cinema dando graças aos céus por ter assistido 'Sin City' por duas vezes no Brasil, o que impediu que o filme fosse arruinado para mim. Agradeci também aos anjos por 'El Secreto de los Hermanos Grimm' NĀO estar passando no cinema no qual fomos, por ser esse o filme que minha mãe queria ver originalmente e que seria DESTRUÍDO pela dublagem, e prometi a mim mesmo que cinema, enquanto na Espanha, só para ver filmes espanhóis. E tenho dito. (Ah, antes que eu me esqueça; minha mãe DETESTOU o filme, como a avisei que faria). Às últimas, então:

ANEDOTA Nº 4 - "¿QUIERES UN CHUPISCO?"
Depois de caminhar por doze horas e deixar minha mãe no quarto do hotel, resolvi sair, ainda que sozinho, para aproveitar meu primeiro sábado à noite na Espanha. Enfiei-me por ruelas estreitas até dar cara com um orelhão, de onde liguei para minha irmã no Brasil. Ao desligar, fui abordado por um grupo de 8 zaragozeñas, que tinham por escolta dois namorados de duas delas. Perguntaram-me de onde eu era e há quanto tempo estava em Zaragoza. Diante de um 'Brasil, e mais ou menos 12 horas' que lhes respondi, resolveram de pronto adotar-me para me mostrar a noite local. Carregavam a tiracolo enormes copos com gelo e garrafas pet de Coca-Cola (que logo em seguida vim a descobrir que tratava-se não de refrigerante puro, mas de 'Calimocho', uma mistura de vinho barato, Coca-Cola e gelo). Acompanhei-as de bar em bar por horas a fio (SIM, meus queridos!!! A noite aqui em Zaragoza é como uma imensa João Alfredo, na Cidade Baixa, só que as músicas são espanholas e NĀO se paga entrada em NENHUMA casa noturna!!!), até que lá pelas cinco e meia da manhã, já com a cara cheia mas ainda inteiraço (ainda estou com o fuso daí, para mim era como uma da manhã), duas delas se aproximam de mim e perguntam: '¿Quieres un chupisco?'; ainda com os olhos arregalados e um sorriso entre o amarelo e o 'isso NĀO está acontecendo comigo' e antes que eu pudesse esboçar qualquer reação, elas me puxam pela mão até o balcão do bar e o barman serve três doses de martelinho de uma aguardente genérica. Ou seja, isso não estava mesmo acontecendo comigo. O chupisco é isso: um martelinho. Bebi-o de um trago só, como elas o fizeram, e voltei para a pista com as duas, ainda a falar de Porto Alegre e do Brasil e a ouvir sobre Zaragoza e a província de Aragón.
Conclusão: Se uma espanhola te oferecer um chupisco, aceite-o. Ainda que não seja o que você está pensando com essa sua cabeça suja de brasileiro latino-americano (que feio, Fábio!) é, pelo menos, uma bebida grátis.

Sunday, September 11, 2005

De Madrid a Zaragoza via 'Budapeste'

Aproveitei três horas e meia das quatro e meia que dura a viagem entre Madrid e Zaragoza para ler 'Budapeste', a última aventura de Chico Buarque pela literatura. Como praticamente tudo que o Chico toca, o livro é, de modo geral, mediano a bom; e ainda assim há alguma coisa quando você acaba que o convence de que aquilo é fantástico. É algo étereo, que quase não se percebe, e no entanto está lá. Bem à moda do Sr. Buarque. Aos que ainda não o leram, recomendo. Especialmente ao pessoal da Letras, pois trata de algo bastante relevante: ghost writers. Às últimas, então:

ANEDOTA Nº 1 - ALIENAÇĀO
Depois de um dia e meio na Espanha, vim saber através da voz preocupada de minha irmā que ainda está em Porto Alegre:
-''Vocês estāo bem? Doze tornados acabaram de passar pela Espanha, o aeroporto de Barcelona ficou 14 horas fechado!''
Conclusāo: Bem que eu avisei à minha māe para nāo trazer o Catarina na mala; só podia dar excesso de bagagem.

ANEDOTA Nº 2 - NO ÔNIBUS
Compramos a passagem de ônibus na Estaçāo Álvaro Mendes, dez minutos antes de embarcarmos, e notei um cartaz que dizia 'protectores auriculares - €1,00' . Estranhei ainda mais quando, uma vez à bordo, vi ao lado do banheiro uma slot machine vendendo os mesmos tapa-ouvidos pelo mesmo €1,00. Logo que a viagem começa, porém, uma rumba de procedência duvidosa tocada pelo som do motorista no último volume me convence: sāo mesmo necessários as tais proteções.
Conclusão: Diferente dos portugueses do último post, são bem espertinhos, esses espanhóis.

ANEDOTA Nº 3 - GLOBALIZAÇĀO
Chegamos a Zaragoza. A cidade é linda, contrastando catedrais gigantescas de 900 anos com Burger Kings metidos em ruelas estreitas, em casinhas com ar medieval. A máxima da globalizaçāo me ocorreu, porém, quando entrei em um Pub inglês para tomar uma cerveja holandesa que me haviam recomendado em plena Espanha e eu, perdido em pensamentos e cansaço, sou subitamente despertado por uma Aquarela executada com perfeiçāo pelo mestre Toquinho e pelo velho Vini no som do local. E, de pronto, estou novamente em casa, a desenhar (...)''navios de partida/com alguns bons amigos, bebendo de bem com a vida''.
Conclusāo: Um brinde à globalizaçāo (nāo falei que ia continuar achando razões para beber por aqui...?). :)

Friday, September 09, 2005

1º Post do Além-Mar

Enfim, chegamos. Percorremos por ar o caminho inverso àquele que os navegadores de Pessoa fizeram pelo mar e cá estamos, prontos a redescobrir o Velho Mundo. Chegamos à mítica Lisboa com os primeiros raios de sol do nono dia de setembro, e agora estou a escrever-lhes oprimido entre um lendário Tejo e um gigantesco Atlântico, como tantas vezes Álvaro de Campos e seus inúmeros heterônimos devem ter sido. Seguimos daqui a pouco para Madrid Vieja, o que significa que ainda terei de tornar aqui com tempo para desbravar as ruelas e botequins da cidade que, para o bem e para o mal, com seus vícios e vicissitudes, é a matriarca do nosso Brasil de hoje. Um brinde ao já finado El-Rey e escrevo novamente em breve! (tenho a impressão de que ainda vou arrumar muito motivo para continuar bebendo por aqui também...).

- Em tempo: viajamos até aqui de TAP, a companhia aérea portuguesa. Antes de embarcarmos, a Polícia Federal nos fez milhares de perguntas sobre se portávamos algum objeto cortante ou pontiagudo, etc. Prática nada excêntrica em tempos de terrorismo mundial. Pois bem, eis que, uma vez à bordo, as comissárias nos trazem o jantar acompanhado de GARFOS E FACAS DE METAL! Tive vontade de fazer o piloto desviar a rota para Libéria, só para ver no que ia dar. E depois ainda não querem que façamos piadas de português por aí...